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Juros altos derrubam a economia local

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Juros altos derrubam a economia local

21/07/2015 00:00:00

Entre janeiro e maio deste ano, o mercado paraense experimentou queda de 1,5% no volume de vendas do comércio varejista, perda de quase quatro mil postos de trabalho somente na capital, e retração de 0,6% na produção da indústria de transformação. Os indicadores negativos são apenas alguns dos muitos reflexos observados a partir da intensa elevação da taxa básica de juros da economia brasileira, a Selic. Ela é responsável por orientar os juros de financiamento entre os bancos, bem como a taxação paga pelo tesouro na venda de títulos públicos. Em suma, a Selic, estabelecida pelo Comitê de Política Monetária (Copom), determina o custo da aquisição de moeda para empréstimos às famílias e empresas, e, consequentemente, a quantidade de recursos financeiros em circulação da economia. Ou seja, quanto mais elevada for a taxa, mais caros ficam os financiamentos.

Durante a mais recente reunião do Copom, realizada a 3 de junho, a Selic foi fixada em 13,75% ao ano, percentual que corresponde à maior taxa dos últimos nove anos, somente menor do que a de agosto de 2006, de anuais 14,25%. A escala ascendente se repete desde 2013, e os efeitos se alastraram rapidamente no mercado paraense, ameaçando, sobretudo, os investimentos no setor da indústria e estagnando a intenção de consumo das famílias. “Essa tendência de alta foi um dos fatores que influenciaram a diminuição nas atividades do comércio e da indústria, pois, alguns setores dependem de financiamentos, como é o caso do imobiliário, de automóveis, de eletrodomésticos, entre outros”, explica a diretora de Estatística da Fundação Amazônia de Amparo a Estudos e Pesquisas do Pará (Fapespa), Maria Gláucia Moreira.

De acordo com os dados da Diretoria de Estatística da Fapespa, em janeiro do ano passado, a Selic fixada pelo Copom estava em 10% ao ano, enquanto a taxa de juros média das operações de créditos cobrada das famílias (pessoa física) estava em 30,1% ao ano. “No mesmo período, essa taxa cobrada das empresas (pessoa jurídica) foi de 16,5% ao ano. Quando a Selic alcançou 13,25%, no final de abril, as taxas médias cobradas no Sistema Financeiro Nacional às famílias e às empresas aumentaram 34,77% e 18,91% (a.a.) respectivamente”, informa. Em resumo, o aumento tem efeito direto sobre os juros do comércio, do cartão de crédito, do cheque especial, entre outros. 

“Diante dos desafios e do atual cenário econômico - no qual já há uma queda no volume de vendas de 3,8%; redução na intenção de consumo das famílias; aumento na  inadimplência; e retração nos investimentos e no emprego - o aumento na taxa Selic agravará ainda mais a dificuldade para atrair demanda, mesmo com as estratégias e as inovações utilizadas pelos empresários”, diz a assessora econômica da Federação do Comércio do Estado do Pará (Fecomércio-PA), Lucia Cristina Andrade. Ela afirma que, com juros mais caros e diante da conjuntura de baixa confiança na economia, o consumidor  estará mais resistente às compras, com possibilidades de adiar novas aquisições de produtos. “A intenção de consumo identificada por pesquisa feita pela Fecomércio-PA, realizada no mês passado, identificou que grande parte dos consumidores pretendia reduzir em 5% as compras para os três meses seguintes, dado o cenário de dificuldade”, assevera. Ainda de acordo com Lúcia, esta parcela de clientes está com 31% do orçamento comprometido com dívidas para pagamento futuro. 

INDÚSTRIA 

Outro efeito relacionado ao aumento da taxa de juros está na expectativas de investimentos. De acordo com Boletim Regional do Banco Central (Bacen), o Índice de Confiança do Empresário do Comércio (Icec) do Norte, divulgado pela Confederação Nacional do Comércio (CNC), atingiu 120,9 pontos em dezembro do ano passado, indicador menor que o registrado em igual período do ano anterior (132,5 pontos), refletindo as retrações nos componentes que avaliam as expectativas de vendas (6,5 pontos), as condições atuais (2,6 pontos) e as perspectivas sobre investimentos (1,1 ponto). 

“A taxa de juros elevada é um processo que impacta negativamente qualquer investimento, pois, quanto mais alta é a taxa, menor é o investimento, gerando incerteza para o empresário”, explica o assessor econômico da Federação das Indústrias do Pará (Fiepa), José do Egypto Soares.

Ele afirma que o Brasil passa por uma recessão técnica, com inflação alta e elevados índices de desemprego, cenário perfeito para a criação de um clima geral de incerteza. “É evidente que isso retrai o investimento do setor produtivo e industrial. A política econômica brasileira, sobretudo a monetária e a de câmbio, tem desfavorecido este processo de crescimento do País. A perspectiva do PIB (Produto Interno Bruto) decrescer 1,5% implica perspectiva negativa para 2016”, comenta. Um dos principais erros apontados pelo economista é a insistente tática do governo brasileiro em combater a inflação como se ela fosse de demanda, estratégia muito usada pelo FMI em décadas passadas. “Temos uma inflação híbrida, ou seja, o remédio não é um só, aplicado no juros e no câmbio, pra resolver a curto prazo. Precisamos começar pelo dever de casa, que é garantir a reforma tributária”, sugere.

Fonte: O Liberal