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Síntese da Conjuntura - a crise de água e energia

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Síntese da Conjuntura - a crise de água e energia

03/02/2015 00:00:00

A Confederação Nacional do Comércio (CNC), em seu boletim “Síntese da Conjuntura”, elaborado pelo economista e ex-ministro da Fazenda, Ernane Galvêas, faz as análises do atual cenário econômico. Veja abaixo o boletim quinzenal, publicado no dia 31 de janeiro:

O intenso calor, a seca e a falta de chuvas estão antecipando uma visão de calamidade em relação à crise de água e de energia elétrica no Sudeste, especialmente nas regiões da Grande São Paulo e Rio. O consumo per capita de energia elétrica vem subindo aceleradamente desde a crise de 2011, de 1.642 kWh para 2.461 em 2015. A crise da água na região do Rio Paraíba do Sul está 25% pior do que a maior seca histórica. 

O nível dos reservatórios das regiões Sudeste e Centro-Oeste caiu de 45% em dezembro/13 para 17,2% atualmente, semelhante ao do Nordeste (17,13%). No Norte é de 64,9% e no Sul de 66,43%. Meteorologistas preveem nova onda de calor para fevereiro e março, aumentando a probabilidade de racionamento e agravamento da situação econômica. Em 2014, o aumento da demanda de energia veio do setor residencial (+6%) e do comércio (+7,5%), com redução de 2,5% da indústria (Thymos).

 A insegurança quanto ao suprimento de energia pode atrasar a retomada dos investimentos no segundo semestre e projetar um resultado ainda mais negativo do PIB em 2015 (abaixo de zero). Com isso, fica reduzida a arrecadação de tributos federais e prejudicados os efeitos da política de ajuste fiscal do Ministério da Fazenda.

Através de Medida publicada em 22/1, o Governo limitou a retirada de água de rios do interior de São Paulo, 20% para empresas de água e 38% para indústrias e agriculturas. 42 Municípios serão atingidos. As causas desse drama estão, principalmente, localizadas na falta de planejamento. Análise da EPE indica que 33 hidrelétricas previstas no Plano Decenal de Energia (PDE 2006-2015) não saíram do papel. Paralelamente, está ocorrendo um inusitado bloqueio no Oceano Pacífico Sul que desvia as frentes frias e as afasta do Rio de Janeiro, e do Espírito Santo, ao mesmo tempo em que os conhecidos “rios voadores da Amazônia” se afastam do Sudeste e estão provocando fortes chuvas no Sul do país e no Paraguai. No Estado do Rio de Janeiro, o nível do reservatório do Rio Paraíba chegou a ZERO, pela primeira vez na história. O Brasil chegou a importar energia da Argentina, 165 megawatts, sem continuidade. A tendência é de termos no Sudeste um ciclo de stress hídrico (falta de chuvas) igual ao do Nordeste. Estamos caminhando para o racionamento e para novos apagões.

A ONS está adiantando a possibilidade de aumentar em 1,5 mil MWs o suprimento de energia na Região Sudeste, sendo 300 MW da Hidrelétrica de Itaipu e cerca de 200 MW da Usina Nuclear de Angra. 

No Rio de Janeiro, o Governador proibiu a captação da água do Rio Guandu pelas grandes indústrias da região.

A TAXA DE JUROS SELIC 

A taxa de juros SELIC nas alturas e a taxa de câmbio valorizada são respostas equivocadas ao gabarito correto da política econômica na atual conjuntura. A nosso ver, com essas respostas, a Diretoria do Banco Central não passaria nas provas do ENEM da política econômica. Historicamente, já se constatou que é um equívoco usar a taxa de câmbio como instrumento da política de controle da inflação. A experiência do Plano Real ainda está fresca em nossa memória para condenar essa prática.

O mesmo se pode dizer da fixação da taxa básica de juros SELIC, com o mesmo objetivo. É óbvio que a taxa de juros pode ser o instrumento mais adequado para conter as pressões inflacionárias do excesso de procura agregada (consumo e investimentos). Neste momento, porém, em que não há uma coisa nem outra, a fixação da taxa real de juros mais alta do mundo evidencia uma total contradição com a política fiscal e a conjuntura de recessão. 

Em 2014, recaiu sobre o Tesouro Nacional um montante de R$311 bilhões de juros sobre a dívida pública. Como o Governo não teve condições de pagar uma parcela mínima desses juros, a dívida pública subiu de 56,7% do PIB em 2013 para 63,4% em 2014. A SELIC foi o maior vilão da política fiscal. E tudo indica que continuará sendo em 2015.  

ATIVIDADES ECONÔMICAS 

A julgar pelo índice IBC-Br, do Banco Central, o nível das atividades econômicas (PIB) ficou abaixo de zero em 2014 e promete manter o mesmo ritmo em 2015, ou mesmo inferior. Segundo a SERASA, o consumo das famílias teve retração de 2,1% em novembro e as importações cresceram 6,2%, principais responsáveis pela queda do PIB. A intenção de consumo (ICF), segundo a CNC, registrou ligeira alta de 0,2% em janeiro, em comparação com dezembro/14. Com a elevação de juros e preços, o índice de confiança do consumidor (ICC) apurado pela FGV, recuou 6,7% em janeiro, o menor nível em 20 anos. A inadimplência das empresas cresceu 7,5% em dezembro último (SPC/CNDL).

Indústria 

A indústria continua sendo o setor mais afetado, na atual conjuntura de retração. Segundo a CNI, o indicador da produção industrial caiu de 45,4 para 38,3 entre novembro e dezembro/13. A indústria paulista teve queda de 5,9%. 

A indústria automobilística, carro chefe da indústria de transformação, registrou queda de produção de 15,3% em 2014 e as vendas de veículos, que subiram fortemente em dezembro/13, voltaram a cair 16,9% em janeiro, em relação a janeiro/14 e 27,5% ante dezembro/14. As remessas de lucros das montadoras caíram 73% em 2014.

Em compensação, a Petrobras produziu 2,1 milhões de barris/dia, em 2014, 13% acima de 2013. Com montantes a receber em atraso e contratos paralisados, os fabricantes de máquinas e equipamentos para a indústria petrolífera estão em dificuldades (ABIMAC). O mesmo se passa com os estaleiros que têm contratos com a Sete Brasil, mas a situação deve ser superada com a aprovação do crédito de R$ 8,8 bilhões do BNDES. No setor de papel e celulose, o Grupo Klabin vai inaugurar uma fábrica em 2016, com capacidade de 1,5 milhões de toneladas ano, investimento de R$ 5,8 bilhões.

A construção imobiliária recuou 5,7% em 2014 e a confiança dos construtores vem recuando desde 2012. A produção de insumos para a construção civil teve queda de 5,7% entre janeiro e novembro/14, o pior resultado desde 2009 (Abramat). A produção da indústria têxtil teve queda de 5% em 2014. Segundo a CNI, o índice de confiança (ICEI) do empresariado industrial caiu de 53,1 pontos em janeiro/14 para 44,4 pontos em janeiro/15.

Atenção: A agência Moody’s rebaixou a classificação da Petrobras pela terceira vez em quatro meses. A empresa está a um passo de perder o grau de investimento.

Comércio 

Segundo o índice Cielo de Varejo Ampliado (ICVA), as vendas do comércio varejista aumentaram 7,6% em 2014, ligeiramente acima de 2013. As vendas de bens duráveis sofreram desaceleração de 2,3%, mas houve crescimento expressivo nos ramos farmácia (+11,8%), postos de gasolina (+6,8%) e supermercados (+6,3%). 

As vendas reais nos supermercados subiram 2,24% em 2014; em valores nominais, a alta foi de 8,73%. É o menor crescimento real desde 2006. 

Segundo a CNC, o índice PMS referente ao setor serviços subiu 5,2% em novembro ante outubro e +3,7% em relação a novembro/13. Os serviços de informação e comunicação cresceram apenas +1,0%. Em termos regionais, a maior expansão foi no Nordeste (+8,5%), com destaque para Bahia (+16,4%), Ceará (+9,1%) e Alagoas (+8,4%). A perda de folego no setor serviços já está afetando o mercado de trabalho.

Agricultura 

O tempo seco levou a Agroconsult a revisar a produção de soja, de 94,7 milhões de tons. para 93,93 milhões. Ainda assim, a colheita será 9% superior à safra 2013/14. A seca está afetando as lavouras em vários Estados, como Espírito Santo, Bahia, Piauí, Sul do Maranhão e Noroeste de Minas. No Sul do Espírito Santo, três Municípios decretaram emergência.

As chuvas mais volumosas (invernada) em Mato Grosso e no Paraná podem interromper a colheita da soja. 

A primeira safra de milho 2014/15 deverá ficar em 29,96 milhões de tons. 5% abaixo da safra anterior; mas a segunda safra tem expectativa de alta de 4%. A produção de etanol deve bater recorde na safra 2014/15, com 28,2 bilhões de litros, 2,5% acima da anterior. 

Das dez principais empresas exportadoras brasileiras, apenas a JBS (US$ 4,7 bilhões) aumentou o valor de suas exportações, situando-se atrás apenas da Vale e da Petrobras. As exportações da Bunge Alimentos caíram 15% e da ADM 23%. Com exceção do café e carne, todas as demais exportações do agronegócio tiveram queda no valor das exportações.

As importações de adubos cresceram 9,7% em 2014, mas as vendas de máquinas e implementos agrícolas recuaram 27%.

Mercado de Trabalho 

Em 2014, foram criadas 488.021 vagas e registradas 636.758 desligamentos. No total, o volume de emprego teve queda de 148.737 vagas. 

A taxa média de desemprego em 2014 ficou em 4,8%, a menor desde 2003, mas a situação do mercado de trabalho não é boa. A redução do desemprego se deve à saída de pessoas do mercado e não à geração de novos postos. Em um ano, 653 mil deixaram de procurar trabalho. Essa situação tende a se agravar em 2015, devido à contração das atividades econômicas. 

Entretanto, a renda média do trabalhador cresceu 2,7% em 2014, assim como aumentou o emprego com 4carteira assinada. Ao mesmo tempo, a população ocupada recuou 0,1%. Segundo a CNC, somente 15% dos temporários contratados no final do ano passado deverão ser efetivados. Em 2014 foi registrada redução de vagas, pela primeira vez. A indústria reduziu seu quadro em 92 mil trabalhadores e o comércio 106 mil.

O nível de emprego na indústria paulista caiu 4,89%, em 2014. A indústria de máquinas e equipamentos demitiu 13 mil pessoas.

Setor Financeiro 

Em 2014, o total de crédito do sistema financeiro registrou expansão de 11,3%, sendo 4,7% no setor privado (recursos livres) e 19,8% no setor público (recursos direcionados). 

Os empréstimos às entidades públicas somaram R$ 196,2 bilhões e às empresas privadas R$ 2.825,6 bilhões, com expansão de 6,9% para a indústria, 27,5% para o setor imobiliário, 18,2% para a agricultura, 5,1% para o comércio e 5,3% para pessoas físicas. 

Os meios de pagamentos (M1) tiveram expansão de 3,4%, o papel moeda em poder do público +9,3% e os depósitos bancários à vista -2,1%. 

O número de cheques sem fundo caiu 8,8% em 2014 e a inadimplência das empresas teve avanço de 5,8%.  

Inflação

A inflação medida pelo IGPM/FGV avançou de 0,62% em dezembro para 0,76% em janeiro. O Índice de Preços ao Consumidor – IPC subiu de 0,76% para 1,35%. Contribuíram para a alta o reajuste dos preços da energia e combustíveis e dos transportes urbanos, assim como do grupo alimentação, que avançou de 0,85% para 1,66%, puxado por hortaliças, legumes e frutas. Em contrapartida os preços das commodities alimentícias caíram de 0,61% para 0,46%. Também contribuiu para a alta o reajuste de 8,5% do salário mínimo. A seca fez a carne bovina subir 22%.

As commodities minerais estão em queda. Além do petróleo, estão em queda o minério de ferro, o cobre e o alumínio. Em janeiro, caíram os preços do açúcar, do café, do cacau, do suco de laranja, do algodão, da soja, do milho e do trigo. 

A elevação da taxa SELIC para 12,25% foi um contrassenso no quadro da política de combate à inflação.

Setor Público 

Impressionante o agravamento das contas do setor público em 2014. Comparando com 2013, foi um desastre. A arrecadação da receita federal somou R$ 1,187 trilhão, queda real de 1,79%. 

Atenção: Em 2013, o Governo economizou R$ 91,3 bilhões para pagar R$ 248,9 bilhões de juros e chegar a R$ 157,6 bilhões de déficit nominal (3,25% do PIB). Em 2014, não houve economia, mas deseconomia de R$32,5 bilhões, com juros de R$ 311,4 bilhões (6,1% do PIB) e chegar a R$343,9 bilhões de déficit nominal (6,7% do PIB). 

Caberá ao Ministro Joaquim Levy estancar essa deteriorização das contas públicas. Para zerar o déficit nominal, precisaria economizar 6% do PIB, tarefa politicamente impossível. Daí a programação de produzir um superávit fiscal de 1,2% do PIB em 2015 e 2% em 2016. Vai levar 10 anos para corrigir o desequilíbrio fiscal e estancar a maior fonte de pressões inflacionárias.

Em 2014, a dívida pública chegou a R$ 3.252,4, um acréscimo de R$ 504,4 bilhões sobre 31/12/13, 5elevando a dívida de 56,7% do PIB para 63,4%. Uma tragédia. 

 Setor Externo 

As contas externas do Brasil fecharam 2014 com recorde negativo histórico. Ao resultado negativo da balança comercial de US$ 3,9 bilhões, somaram-se o déficit de US$ 48,7 bilhões em Serviços e US$ 40,3 bilhões em Rendas, elevando o déficit em C/Correntes a US$ 90,9 bilhões. A cobertura desse déficit se fez com o ingresso de capitais – IED no valor de US$ 62,5 bilhões e o restante com financiamentos diversos, inclusive elevação da dívida externa de US$482,8 bilhões em 2013 para US$ 554,7 bilhões. Os gastos dos brasileiros no exterior atingiram o recorde de US$25,6 bilhões. 

A cada dia pioram as perspectivas, admitindo-se, inclusive, a perda de US$ 14 bilhões com a queda dos preços das nossas principais commodities de exportação. 

Na área internacional, a situação não é boa e o FMI estima em 3,5% a expansão do PIB mundial em 2015. Nos Estados Unidos, o crescimento do PIB foi de 2,4%, com expansão de 2,8% nas exportações e 8,9% nas importações. 

A Europa vive a expectativa do afrouxamento monetário anunciado pelo Banco Central Europeu, equivalente a recompra mensal de €50 bilhões de títulos públicos. A medida deve provocar a desvalorização do euro frente ao dólar, acirrando a “guerra cambial”. Em 2014, o PIB da Alemanha cresceu 1,5%. 

Na Ásia, o “novo normal” é o crescimento médio de 7,4% da China, como ocorreu em 2014. Curiosidade: em dezembro/14, a exportação da China foi superior à exportação anual do Brasil.

Fonte: Jornal do Brasil